segunda-feira, 22 de junho de 2015

A novela do visto francês - Pt. I

Vamos por partes. A primeira coisa que você deve saber é que uma estadia de até 90 dias em território europeu pode ser feita sem visto. A partir disso é necessário passar pelo processo todo. Caso você seja estudante (graduação, mestrado, doutorado...) deve fazer o procedimento inicial no Campus France. Alunos de pós-doutorado são considerados pesquisadores, não mais estudantes. Por isso, o processo deve ser iniciado no site da Embaixada Francesa. O procedimento é, teoricamente, simples. Você reúne os documentos - originais e cópias, agenda um rendez-vous no consulado referente ao seu Estado (no meu caso, a Paraíba é atendida em Brasília), vai no dia agendado, leva os documentos e pronto. Você vai, basicamente, precisar de: 1) Formulário de longa estadia preenchido (tem no site); 2) passaporte com validade de mais de 6 meses além da data da viagem; 3) fotografia 3x4 sem data; 4) Documento comprovando alojamento nos 3 primeiros meses; 5) Convention d'accueil (um documento dado pela instituição atestando que vai receber você), assinada e carimbada pela préfecture de police. Para familiares as mesmas coisas, adicionando um documento que comprove os laços (certidão de nascimento, certidão de casamento) e, no caso de menores, autorização para residir na França caso a criança vá apenas com um dos pais (meu caso!). 

Antes da novela, um parêntesis. Os passaportes das crianças menores de 1 ano valem apenas por 1 ano. A partir de um ano eles duram o dobro da idade (um ano, passaporte vale dois anos), até completar os 3 anos e o passaporte durar o tempo normal de 5 anos. Minha pequena, com 3 anos, já está no 3o passaporte. O anterior dela venceria em dezembro deste ano, mas com essa exigência de "validade de 6 meses além da data da viagem" optei por fazer um novo e aumentar a coleção dela. Ainda sobre as crianças: os menores não precisam ir junto no consulado! Ainda bem, imaginem ter que ir em Brasília num bate-volta com a pequena. Dá preguiça só de pensar.

Então, a novela começou há 3 meses atrás (precisamente, dia 17 de março) quando resolvi que iria fazer o pós independente de bolsa. Incentivada por minha irmã e mãe, iniciei os procedimentos para dar entrada no visto com a ilusão ideia que em julho estaria com tudo pronto. Enviei um e-mail ao meu supervisor solicitando a "convention d'accueil", agendei o rendez-vous no consulado pra final de abril e esperei. O professor me respondeu passando a bola para um aluno dele de doc-sanduiche (gratidão, Flávio!) e para a secretária, porque ele não sabia o que fazer. A secretária, depois de muitas idas e vindas, mandou uns formulários para eu preencher. Chegou final de abril e os tais formulários deveriam ser aprovados na reunião do Centro. Férias de Páscoa. Adio o RDV. Início de maio minha ida é aprovada pelo centro e o dossiê segue para a sede da instituição. Muitos e-mails depois, com pedidos de novos dados, o tal documento chega, em junho (!!!), no lugar final. Depois de aprovado pelo centro em que vou estudar; aprovado pela sede; depois de enviar muitos documentos para completar o dossiê; o documento segue no começo de junho para a préfecture de police a fim de ser assinado e carimbado. Depois disso, ele voltará para a sede, é encaminhado ao chefe e só depois o chefe de lá envia para mim. Adiei o tal RDV no consulado mais de 3 vezes e ainda existe a possibilidade de precisar remarcar. Nessa altura do campeonato, ainda estou sem saber se poderei cumprir os prazos combinados com a CAPES porque o tal documento francês parece estar longe de chegar. Vivo mandando e-mail ao pessoal de lá, de forma bem educada, lançando um "pardonnez-moi de vous déranger", mas a coisa caminha bem devagar, viu? Alô, burocracia francesa, estou entendendo bem o porquê falam tanto de você! Oo

Entenderam o trâmite burocrático? Já estou na novela há mais de 3 meses! Imaginem se eu tivesse deixado isso para depois do resultado da bolsa...só conseguiria viajar no ano que vem! Dedos cruzados para receber boas notícias amanhã.

Lição número 4: se o seu pós-doc é na França, antecipe o pedido da convention d'accueil, por via das dúvidas.

sábado, 20 de junho de 2015

Pós-doutorado no Exterior - Bolsas CAPES e CNPq


CAPES e CNPq são as duas principais agências de fomento à pesquisa e pós-graduação do país. Ambas são do governo federal, mas existem agências estaduais (como a FAPESP) e outras privadas que oferecem também bolsas de estudo. Primeiramente, mais do que qualquer coisa, devo dizer: leia os editais! É, isso mesmo, leia uma, duas, três, quatro... “trocentas” vezes, leia quantas vezes for necessário. Uma coisa que percebi nas minhas andanças pelos sites é que as dúvidas mais comuns giravam em torno de coisas que seriam facilmente respondidas se os editais fossem lidos com cuidado (ééé, isso mesmo! Leia!) ou de questões relacionadas a elaboração mais específica do projeto. Bom, basicamente, para as duas agências, você vai precisar de um projeto, de uma comprovação de que foi previamente aceito pelo orientador no exterior (carta-convite ou e-mails trocados que mostrem interesse), de uma comprovação que está concluindo o doutorado (no caso da CAPES, precisa da ata de defesa ou diploma), de uma declaração do orientador de que o seu conhecimento na língua é suficiente e currículos (seu e do orientador).  O projeto no CNPq não tem normas explícitas, mas a CAPES pede: Projeto de Pesquisa em Português, com um máximo de 15 páginas, fonte modelo Times New Roman 12, espaço 1,5 entre linhas, contendo, como referência: 1) Título; 2) Resumo; 3) Introdução e Justificativa; 4) Objetivos com definição e delimitação do objeto de estudo; 5) Metodologia; 6) Relevância da realização da pesquisa no exterior; 7) Plano de atividades; 8) Cronograma de execução; 9) Referências Bibliográficas. A quem pretende submeter nas duas agências, recomendo fazer logo nas normas da CAPES. Se o seu projeto for em “área prioritária”, submeta através do “Ciências sem Fronteiras (CsF)”. Como não era meu caso, submeti de forma individual para ambas instituições. Os títulos das seções recomendados pela CAPES me parecem auto-explicativos; minha recomendação é deixar bem claro, gritante e bem argumentado o porquê de você querer fazer o tal Pós-doutorado fora do país – no meu caso, foquei na importância do grupo de pesquisa parisiense na minha área específica e nos impactos que minha inserção lá geraria no Brasil (no caso, meu trabalho por aqui). Vi muitos indeferimentos por questões de currículo (meu maior medo!) e também por constatação dos avaliadores que a pessoa poderia desenvolver o projeto no Brasil (então, precisa convencer o avaliador que só no exterior você conseguirá cumprir bem os seus objetivos).

Como é possível observar no site de ambas as agências, existem cronogramas anuais regulares (3 chamadas do CNPq e 2 chamadas da CAPES) e você deve submeter na chamada correspondente ao mês que pretende iniciar o pós. Para iniciar em agosto de 2015 eu precisava submeter a proposta no final de 2014 e teria a resposta em abril/maio sobre a concessão (ou não). Importante lembrar que a CAPES exige que o candidato já tenha concluído o doutorado para submeter proposta; O CNPq, por sua vez, permite que ele submeta sem ter defendido, mas a bolsa só será implementada quando ele comprovar a defesa, claro! Dia 30 de outubro de 2014 eu submeti as propostas e iniciou-se a longa espera. No Brasil o ano de 2015 inicia aos trancos e barrancos, orçamento menor, atrasos e mais atrasos de repasse de recursos, comecei a me preocupar em excesso. Estava vivenciando de perto os impactos orçamentários nos projetos institucionais, vi que a bolsa poderia não rolar, fiquei super preocupada porque já tinha investido muito esforço, dinheiro, neste projeto. Por isso, com o apoio da família, decidi pedir auxílio a uma prima minha que mora em Paris, ela permitiu que eu dividisse apartamento com ela e, assim, decidi que iria mesmo sem bolsa, apenas com o salário de servidora pública que, convertido em euros, vira muito pouco...mas o sonho era maior! Fiz as contas e vi que daria para pagar as contas principais; não teria luxo nem poderia passear, mas estava muito disposta a fazer isso. Mudei para a casa dos meus pais, para deixar de pagar aluguel e conter os gastos (gratidão!), em abril de 2015, com o firme propósito de sair em agosto.

Enquanto isso o CNPq mantinha no site “processo em análise pelo CNPq” e você não sabe de nada do processo. Eles não enviam e-mail, você apenas aguarda. O resultado estava previsto para sair dia 15 de abril de 2015 e foi adiado para o dia 30 de abril de 2015. Eu vivia ansiosa, entrava no site todos os dias, e dia 30 (ironicamente, no meu aniversário!) recebi a notícia que não teria bolsa do CNPq. Segundo eles, o projeto tinha mérito, mas eu não tinha sido classificada na quantidade de bolsas que eles liberaram. Apenas 03 bolsas para o Brasil inteiro (na área de Psicologia), cujos contemplados eram doutores há mais de 10 anos, um deles com dois pós-doutorados, e eu fiquei pequena diante disso. Chorei. Recebi um abraço carinhoso do meu pai durante o choro. Ele me dizia com o abraço que ia dar certo, que eu não precisava me preocupar... Eu pedi reconsideração do CNPq, mas ainda não tenho notícias sobre isso, apesar de achar que não vai dar em nada, visto que o problema não estava no projeto, mas na falta de dinheiro. Eu já imaginava. O CNPq estava dando prioridade às “áreas prioritárias” do Ciências sem Fronteiras (CsF), Psicologia não faz parte da lista e, por isso, são concedidas tão poucas bolsas. Bom, o resultado não me fez duvidar da minha capacidade, entendi que não foi falta de mérito, fiquei triste, claro, mas logo superei pensando que por mais difícil que fosse, era algo que eu desejava muito e iria fazer funcionar.

A CAPES, por sua vez, tem um acompanhamento do processo que permite saber ao menos a etapa em que o projeto se encontra. Inicialmente dizia “processo recebido. Aguarde comunicação da CAPES”; depois foi “Processo em análise de mérito. Aguarde comunicação da CAPES”; e em abril de 2015 ele mudou para “Processo aguardando parecer final da CAPES. Aguarde comunicação”. Ele passou na análise de mérito e agora poderia ser deferido ou não, o que iria depender da classificação, orçamento... Tentava decifrar o que a frase queria dizer, mas não tinha o que fazer, o negócio era esperar porque não havia indicação nenhuma do resultado. O resultado estava previsto para a primeira quinzena de maio de 2015 e eu estava ansiosa, pouco confiante, mas feliz porque imaginava que a CAPES não iria atrasar o resultado e em duas semanas eu saberia se ia apenas com meu salário ou com bolsa para Paris. Viver de pão ou de vinho. Passear nos parques gratuitos ou passear pela Europa. Comer no bandejão da universidade ou na Champs-Elysées (hahaha :P). As duas opções pareciam-me igualmente fascinantes. Aguardei e dia 15 de maio adiaram o resultado para “junho”. Pronto, o pânico se instalou. Foi o mês mais longo dos últimos tempos, eu estava cada dia mais preocupada, euro subindo e meu salário valendo menos, liguei inúmeras vezes para capes, enviei e-mails, e todos pediam paciência, diziam estar aguardando as decisões orçamentárias. Fiquei estressada de verdade, muito ansiosa...

Somente no dia 18 de junho de 2015 saiu a lista dos aprovados e eu consegui! (beijo, capes :*)Dessa vez o choro foi de alívio... O status agora é: “Aguardando parecer da CAPES. Aguarde comunicação da CAPES”, e logo deve ir para “Processo deferido”. Depois da lista, a gente aguarda o e-mail de deferimento do processo. Neste meio tempo, enviei um documento de “confirmação de interesse” na bolsa de estudos, através do “Envio de documentos complementares”. Depois falo um pouco sobre o processo de implementação e o tempo de espera para começar a receber.

Lição número 3: áreas não prioritárias têm mais chances pela CAPES.


Ah, o pessoal do grupo do facebook "CAPES - Doutorado pleno no exterior 2015/1" fez um pequeno estudo empírico, nada científico, sobre os status da CAPES. Para quem está na agonia pode aumentar mais ainda ou se sentir confortado pelo fato de que ninguém sabe de nada. Na minha vivência o tal gráfico deu certo, rsrs, mas sei lá, dizem por aí que os técnicos possuem um prazer sádico em mudar status só para gerar essas discussões em candidatos ansiosos e que não leva a lugar nenhum. A título de curiosidade, segue a análise:

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Vamos para Paris!


Há muito tempo quero gritar ao mundo que vou fazer um pós-doutorado em Paris levando minha pequena de 03 anos! Mas, não queria dizer nada sem antes ser oficial, então esperava a publicação das portarias me liberando, apesar de já ter essa certeza há um bom tempo. Busquei, durante um tempo, locais pela internet em que pudesse ter informações sobre tudo, sobre como seria ir sozinha com uma criança passar um ano em outro país. Encontrei alguns sites que me foram úteis em alguns aspectos, não em outros, reuni informações e coragem para decidir. Criei este blog, há algum tempo atrás, que seria para, futuramente, reunir essas informações para ajudar outras pessoas.

A história começou com uma paixão que nasceu por Paris quando a visitei pela primeira vez em abril de 2013. Nunca fui aquela pessoa doida para conhecer Paris (era mais louca para conhecer Londres), mas confesso que me apaixonei por toda aquela melancolia e história que ronda o lugar. Combinei com meu companheiro na época que iríamos, no próximo ano, passar um mês para viver intensamente aquela cidade. Isso não aconteceu. Poucos meses depois a gente se separou e, junto com o luto de uma relação que findava, surgia a necessidade de buscar um sonho meu, sonho antigo, que desde a graduação alimentava – mas que não tinha condições de realizar -, a realização de um intercâmbio. Paralelamente a isso, meu doutorado caminhava em direções teórico-epistemológicas que foram consolidadas em um grupo parisiense do Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM) comandado pelo professor Yves Clot. Enviei e-mail a ele e descobri, meio à força, que eles não respondem e-mail tão facilmente. Mandei e-mail, então, a outro professor, da UFRN, que havia feito um pós-doutorado naquele grupo e fui informada que naquele mês o professor estaria em Natal e eu poderia conversar com ele.

Há-há. Fui ao evento. E só conseguia falar “je n’ai pas compris” [eu não entendi], com um francês enferrujado do meu tempo de adolescente. Ele não falava inglês, nem espanhol, e me disse em um francês (que eu pude compreender) que não poderia fazer pós-doutorado sem falar francês (óbvio, né? =/). Era outubro de 2013. Entrei em pânico. Voltei para casa meio derrotada, busquei um professor particular de francês e decidi que iria à Paris ter uma reunião com ele, para que ele pudesse ver meu esforço e meu desenvolvimento. Meus pais compraram minha ideia, agendaram a passagem comigo e em abril de 2014 lá fui eu – levando minha prima francesa junto, claro, hahaha – para o rendez-vous com o professor. Depois das apresentações, introduzi um “je vais essayer de parler” e tentei com um francês em evolução manter minimamente uma conversação. Ele notou meus esforços, meu crescimento, pediu que enviasse meu projeto e disse que, estando tudo ok, eu poderia fazer o curso com ele! Foi uma reunião excelente, ganhei até um livro dele, e saí satisfeita com a possibilidade. O plano era ir em março de 2015, mas devido ao início do semestre e ao fato da escola pública gratuita iniciar quando a criança tem 3 anos de idade [assunto para outra hora], resolvi que iria em agosto de 2015.

Retornei ao Brasil e li, li, li. Defendi meu doutorado. Li, li, li. Enviei meu projeto em julho de 2014 e em setembro de 2014 ele respondeu dizendo que recebeu (pois é...esqueci que julho e agosto são as férias de verão!). Em outubro recebi seus documentos (dentre eles, a carta-convite) e submeti pedido de bolsa de estudos para Capes e CNPq [detalhamento que vem depois]. Vejam só que o processo todo, desde a decisão até toda organização e ida definitiva, durou quase 2 anos. Foi um planejamento de médio prazo, tudo muito desejado, com muita (MUITA!!!) dedicação envolvida, porque não foi fácil lidar com tantas mudanças, burocracias, sem ter, de fato, certeza absoluta que iria se concretizar...

Post muito longo, por isso... Lição número 1 para quem quer fazer pós-doutorado no exterior: busque um grupo para se inserir, pois será preciso uma carta-convite da instituição/orientador para submeter propostas de bolsas. Lição número 2: nem sempre as coisas são tão rápidas quanto a gente deseja.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Será que volto a virar gente?

Lembro como se fosse ontem quando entrei no mestrado, com energia de sobra, questionando as pessoas que relatavam dificuldades em concluir a pós, parecia tão simples! Terminei o mestrado do jeito que comecei, com muita energia, muito tranquilamente, quase como se não fosse nada demais... E veio o doutorado, e esse danado queimou o meu juízo. Eu fiz tanta coisa correndo, tanta coisa ao mesmo tempo, que de repente só a obrigação de terminar já não dava mais conta de motivar. Nem progressão salarial. Tentei reencontrar o amor pelo meu objeto de estudo, sei que o amor existe, mas ele ficou soterrado pela obrigação, pela burocracia, pelo dever. 

Hoje cá estou, um zumbi, na frente do computador o dia inteiro, dor de cabeça que não passa com nada, sono quebrado e estresse, muito estresse. Não produzo como gostaria, cada linha é um parto, mas ainda faltam tantas linhas! O tempo passa, corre, e o desespero aumenta. Preciso de pausa, mas não posso pausar; se eu paro, não produzo; se eu não paro, não produzo também, o que fazer? Menos de 2 meses para entregar a versão final, tantas demandas, tantas atividades, tanta desmotivação, nunca imaginei que fosse passar por isso! Tá difícil, muito difícil...no meio disso tudo fico me perguntando se um dia eu volto a ser gente, já que hoje ter vida fora do computador parece um sonho distante, uma utopia.

Por essas e outras que dou um conselho a quem ler isso aqui: nunca (NUN-CA) pergunte a um aluno de doutorado "como está o doutorado?" ou alguma pergunta similar que o faça lembrar disso. A cobrança que fazemos de nós mesmos todos os dias é enorme, e quando estamos longe dele só queremos tentar fugir, pausar, mesmo sabendo que ele tá sempre ali, porque diferente de um trabalho comum, as obrigações acadêmicas estão na cabeça, não tem como "bater o ponto". É, quem sabe um dia eu viro gente de novo...

quinta-feira, 6 de março de 2014

Lei de Murphy em 5 passos

1) tela azul da morte exatamente na hora que você pensa em salvar o arquivo;

2) cria dormir 3h seguidas só porque você naquele dia resolveu que não ia dormir com ela;

3) ir ao banheiro e descobrir, quando já era tarde, que não tinha papel higiênico;

4) encontrar aluno seu em um momento que era para ser de diversão;

5) descobrir que ao invés de ser restituída no imposto de renda, tem é mais dinheiro pra pagar (cooooomo!? Como!? Ainda estou tentando engolir essa história...).

sábado, 1 de março de 2014

Falando de peitos

Fiquei bastante em dúvida sobre qual dos temas que andam remexendo a minha cabeça eu deveria falar. Mas, como só agora concluí o desfralde completo da Liv, resolvi que seria interessante revirar algo que sempre rodeia a minha cabeça: amamentação! Não vou aqui falar dos benefícios, do quanto sou contra chupeta, leite artificial dado desnecessariamente, essas coisas, pois vou considerar isso como já estabelecido e ir direto para o que eu quero dizer.

Toda mãe um dia entra em parafuso por causa da amamentação. Assim, entramos em parafuso algumas vezes em momentos distintos, mas inevitavelmente tem aquelas horas que pensamos em desistir e entupir a criança com uma mamadeira de mucilon (#sqn!). Das queixas mais comuns que escuto, e que também são minhas, é que tem dias que não se consegue fazer nada, a criança só quer ficar pendurada (tem dias que eu nem sento, porque se eu sentar é batata, Liv vem pedir mamá); bebê acorda de madrugada várias vezes e só pára de chorar com o peito (acordar de madrugada não acontece só com criança que mama no peito, hein?); vontade da mãe de se sentir dona do próprio corpo; ataques em qualquer lugar em busca do peito (leia-se: bebê praticamente arranca a roupa da mãe); não aceita dormir com outras pessoas, porque só dorme no peito; e uma queixa bem minha: vontade de usar roupas que não são legais para amamentar (hahaha, aí eu vou dar aula com essas roupas, lá não tem perigo de rolar um ataque às peitcholas)! Entre uma surtada e outra, várias mães desmamam seus filhos de forma brusca e cruel (por exemplo, tira e deixa o bebê chorar até cansar, uma dia ele desiste; ou bota vinagre/café/pimenta nos seios) ou de forma enganosa, inventando histórias para a criança (tipo, o "mamá está dormindo" ou "o mamá está dodói" - aí coloca um curativo no seio). Muitas fazem isso porque não vêem outra alternativa e, de fato, não é um tema exatamente fácil de se debater ou de se encontrar referências interessantes para ajudar. Uma coisa que eu li e faz muito sentido é que muitas vezes o problema nem é a amamentação em si, mas a nossa vida atarefada, a necessidade de fazer outras coisas, porque talvez se vivêssemos só para isso, esperando o desmame natural, tudo seria mais simples. Tá que isso é um exagero, mas eu realmente percebo que surto quando tem outras coisas me incomodando, seja trabalho, doutorado, alguma questão emocional; no resto das vezes, sou (ou costumo ser) mega-ultra-super paciente.

Então, eu vivo me deparando com essas questões, leio, tento me organizar internamente e fazer o que eu acho mais adequado, com base na minha rotina e nas minhas crenças. Três coisas que eu estabeleço antes de fazer algo grande aqui em casa é (1) avaliar se aquilo vai ser melhor para a Liv, analisando inclusive se vai ser bom pra mim a ponto de melhorar a minha relação com ela - acho que isso é sempre bom, né?, (2) qual a minha disponibilidade efetiva (física e emocional) para fazer e (3) listar o que eu admito e o que eu não admito durante o processo. Com relação aos peitos, três grandes coisas foram feitas aqui em casa: um semi-desmame noturno (aos 12m); uma semi-retirada, aos 18m, da livre demanda e oferta (rsrsrs); desassociação peito-sono [em processo]. Esses 'semi' eu explico depois.

[semi] Desmame noturno da Liv

Quando Liv completou 12 meses ainda tinha sono de recém-nascido, dormia no máximo 3 horas seguidas e tinha uma mãe que já não aguentava mais ficar sem dormir. Dentre as possibilidades, o desmame sugerido pelo Dr. Gordon parecia interessante, partia da ideia de diminuir o tempo das mamadas aos poucos, colocar o bebê acordado no berço e ficar com ele sempre. Choro faz parte do processo, mas o bebê não fica sozinho chorando. Ele propunha algo para ensinar o bebê a dormir sozinho e eu só queria que Liv esticasse mais o sono. Estabeleci que não admitiria choro desconsolado, bebê dormindo por cansaço de tanto chorar e que eu não me importava de niná-la até dormir. Parti do pressuposto que ela iria, sozinha, esticar o sono...então, a minha proposta era dar o mamá, ninar até dormir e colocar no berço. Ela dormia em torno de 19h, acordava pela primeira vez umas 22h, depois perto de 01h, outra acordada em torno das 4h e depois, definitivamente perto das 6h.

Na primeira noite, fiz isso as 22h, ela brigou um pouco, mas dormiu. Acordou 01h, mamou, fui ninar e não parava de chorar...chorou, chorou, chorou, já estava perdendo a paciência, tentei amamentar, mas ela não relaxava, não dormia, nem o peito estava resolvendo mais. Depois de mais de 1h nessa brincadeira, resolvi por alguma iluminação olhar a fralda dela e, assim que abri a fraldinha, ela sorriu...tadinha, os dentinhos estavam nascendo e ela estava toda assadinha, pela primeira vez na vida! Nem preciso dizer que me senti super mal de perder a paciência, mas depois da fraldinha trocada, muita pomada, ela dormiu sem mamar e sem chorar. Nas próximas duas noites eu fiz uma maratona pelo quarto na acordada das 22h, andando, ninando, andando, ninando...ela não chorava, mas também não dormia, demorava a ceder. No quarto dia ela já dormiu assim que eu peguei e depois simplesmente parou de acordar as 22h...e também parou de acordar a 1h (nessas acordadas da 1h, eu estava com sono e preguiça de ficar andando pelo quarto, depois da 3a noite comecei a niná-la dentro do berço mesmo). Mas, na mamada das 4h era briga sempre, ela QUERIA o mamá...então, resolvi por um meio-termo, fiquei satisfeita de manter apenas uma acordada e deixei o desmame completo para mais tarde. Foi empate.

Até hoje, aos 20 meses, essa acordada em torno das 4h acontece e eu ainda não tive disponibilidade física e emocional para tirar a mamada. Estou estabelecendo o período das férias como o momento ideal, pois provavelmente já terei defendido também, então a cabeça estará mais aliviada.

[semi] Retirada da livre demanda e oferta

Aqui fui eu dando uma ajudinha para a diminuição das mamadas durante o dia, quando ela completou 18 meses. Liv costumava (ou costuma) pedir sempre que está entediada, sempre que se incomoda com alguma coisa, sempre que eu estou sentada "sem fazer nada", sempre que eu não estou dando 100% de atenção a ela, ou seja, o dia inteiro porque obviamente alguma dessas coisas inevitavelmente irá acontecer durante o dia. E eu cansada, claro, como sempre...algumas vezes a amamentação acontecia por pura obrigação, por raiva, sem prazer ou vontade nenhuma de dar mamá.

Vi que era algo que eu precisava fazer por nós duas, até para que nossa relação não fosse pautada apenas no peito e resolvi que não iria admitir durante o processo choro completamente desconsolado, daqueles que a gente sabe que não é apenas reação à frustração. As reações às frustrações eu resolvia (tento, ainda, resolver), pegando no colo, acolhendo, distraindo.

Então, comecei a estabelecer algumas regras para nós: 1) se ela não pedir, eu não ofereço (e, pasmem, isso realmente diminui MUITO as mamadas); 2) "programar" aproximadamente 3 mamadas por dia, então, seria uma de manhã, uma à tarde e uma à noite, sendo assim, sempre que ela pede nestes intervalos eu ofereço outras coisas e procuro verificar o porquê dela estar pedindo. Pode ser sede? Ofereço água. Pode ser fome? Ofereço algo para comer. Pode ser tédio? Ofereço alguma brincadeira, alguma saída ou atividade que ela gosta. Pode ser atenção? Pego no colo, dou cheiro, largo o que eu estiver fazendo. 3) adio a mamada dizendo que dou depois de 'tal coisa', especialmente se está perto do almoço ou jantar. Aqui em casa, por exemplo, a rotina do sono inclui banho, escovar os dentes, mamar e dormir, então, depois das 18h eu digo que dou depois do banho. Esse último não funciona em dias que eu trabalho, porque eu chego, ela pede e sei que é necessidade do aconchego, então eu dou. Quando ela entrar na escolinha essa rotina provavelmente vai se alterar. 

Bom, a retirada da LD foi 'semi' porque eu não nego sempre, é muito intuitivo e acaba fazendo parte do nosso cotidiano. Mas, uma coisa é certa, eu não dou mais sempre que ela pede. Ela passa o dia longe de mim, às vezes, passa bem, come bem, então eu sei que o mamá não é só para a nutrição, sei que ela pede muito pelo contato comigo. As mamadas antes de dormir e a mamada assim que acorda de manhã são de lei, essas eu não mexi e nem pretendo mexer por enquanto.

Desassociação peito-sono

Então, Liv tinha uma dificuldade muito grande de dormir com o pai dela, era escândalo em cima de escândalo e pensamos que poderia ser porque ela sempre dormia mamando. Resolvi, então, dar o mamá e colocá-la para dormir sem mamar, só ninando. Tentei fazer a Remoção Gentil, mas fui vencida por ela...eu tirava quando ela estava quase dormindo, ela chorava, reclamava, eu dava de novo; chegou uma hora que ela despertou novamente só para ficar lutando comigo, empurrando a minha mão, ao ponto de levar mais de duas horas para dormir novamente. Pensei comigo que aquela não seria uma boa estratégia para nós...

Novamente estabeleci que não admitiria choro desconsolado, nem bebê dormindo de cansaço por tanto chorar. Então, ela mamava, quando eu via que já não estava mais sugando, só 'chupeitando', explicava a ela que ela já tinha mamado e agora ia dormir. Ela brigou, lutou, me empurrou...eu a abracei firme, pedi que se acalmasse, cantei, e aos poucos foi parando...demorou horrores para dormir, mas fiquei ninando ela sentada e ela ficou bem quietinha até dormir. E assim foram as outras noites...ao ponto dela dizer, depois do banho, que ia "mamá, apois [depois] mimi". Começou a dormir mais rápido, mais fácil, inclusive com o pai. Depois da 2a noite já soltava o peito de boa, sabia que ia dormir e aceitou bem.Foi ótimo!

Maaassss...quem cedeu fui eu! Há! Ando tão cansada que várias vezes dormi sentada com ela mamando e acabava não tirando ela do peito para ninar. Resolvi, então, que não era hora de mexer nisso pela minha indisponibilidade física e emocional. As coisas facilitaram para o pai dela, então, já fiquei satisfeita do resultado ter trazido algo bom para a relação deles. A desassociação e o desmame noturno completo só vai acontecer, agora, no meio do ano, quando espero estar com a cabeça mais tranquila, com menos atividades :)

Hoje estou aprendendo a me culpar menos, mas várias vezes fiquei com a consciência pesada de negar peito, de frustrá-la, mas é importante lembrar que são justamente essas frustrações que oferecem ao bebê a oportunidade de fazer a transição para a fase da independência, em termos winnicotianos. O importante é acolher a frustração e não deixar o bebê sozinho, pois somos ainda o referencial deles, o objeto principal de apego. Tudo tem sido feito com calma, com cuidado, com carinho, sem transições bruscas, de modo que nós duas estejamos preparadas para o desmame. Há dias que eu penso na alegria de desmamar; outros eu penso que não estou preparada ainda; então, vejo essas pequenas decisões do cotidiano como preparação, para mim, para ela, para o binômio. E assim a gente prossegue, errando muito, acertando pouco, mas com a certeza que nada é feito por acaso, tudo é pensado, planejado, em função de uma relação o mais saudável possível (com surtadas eventuais, claro, porque somos todos humanos! :P)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Eternos conflitos com a internet...

Faz um tempo que estou tentando escrever alguma coisa para o blog mas não consigo por me deparar sempre com a mesma questão: quem vai ter acesso? Cada dia mais tenho me incomodado com a vivência através da internet, o excesso de exposição - muitas vezes causado por nós mesmos - e o impacto dessas coisas na nossa vida. Será que as coisas que eu coloco aqui podem realmente ser lidas por todo mundo? O que é que pode ser lido por todo mundo? Todos os dias acontece alguma coisa que mexe comigo em relação ao tema e me faz ficar cada vez mais certa que fiz bem em sair do facebook. Uma amiga, dia desses, conversou comigo e disse "ah, é porque Fulano postou isso"...a postagem de Fulano acabava interferindo na minha vida, nas coisas que essa minha amiga saberia de mim sem que fosse através de mim, isso não soa bizarro? Alguém saber de mim, algo que é meu, só meu, sem ser por mim? E se eu não quisesse dividir? Fulano não estava errado, ele estava falando dele, mas até que ponto o nosso 'eu' é só nosso? Outro dia foi a minha mãe, que veio comentar sobre uma saída da Liv, dizendo "ahhh, eu vi que você estava com Sicrano, Beltrano, fazendo não-sei-o-quê"...na hora eu pensei: "oxe, como é que você sabe disso e EU não sei?". Facebook. Ninguém se comunica mais, ninguém conta mais as coisas, simplesmente publicam no facebook e passam a acreditar que agora não precisam mais falar porque está lá, para todos verem; e, se está lá, automaticamente todos sabem, então parte-se do pressuposto que já é algo sabido, já é passado, não se conversa sobre. Se alguém desabafa um sentimento triste e eu curti, comentei, pronto, está resolvido, não se fala mais nisso. Quanta superficialidade nas relações! Quanto mais eu interajo com o mundo e, principalmente, comigo mesma, menos eu tenho vontade de retornar às redes sociais e mais eu questiono a existência desse blog.

Hoje por pouco não deletei o blog, porque ficava filtrando o tempo todo o que colocaria aqui e quão importante (ou não) seria publicar as coisas que tem aqui. Não apaguei por um motivo meu, que é só meu, de elaborações futuras, coisas que pretendo colocar aqui por ter precisado delas e ter tido dificuldade em encontrar, mas que ainda não são publicáveis. E aí? Qual o motivo do blog existir no presente? Agora? Tô virando "a chata da internet", hahaha... Ferramenta maravilhosa, que me ajuda DE-MAIS todos os dias, mas absurdamente sugadora de força vital. Todo mundo vidrado nela noite e dia, dia e noite...computador ligado 99% do tempo, celular em punho 100% do tempo, a urgência com temas não urgentes, a necessidade de fazer as pessoas estarem perto, sem se esforçar em fazê-las estarem perto de verdade. Aos poucos estou tentando eliminar essas urgências, aprendendo a simplesmente deixar para depois, colocar a mim mesma como prioridade, acima dos artefatos. Minha orientadora de mestrado e a atual, de doutorado, pareciam para mim duas ET's que não se familiarizavam com as tecnologias, mas aos poucos tenho visto que elas têm muito mais tempo para viver a vida delas do que eu mesma tinha naquele frenesi com a internet. E olha que eu nem me considerava a pessoa mais viciada de todas, imagina se eu fosse! Eu conseguia sair sem postar onde estava, ficar com os amigos sem precisar responder whatsapp ou entrar no facebook, mas conheço muitos que não conseguem e agora, que estou de fora, fico vendo o quanto a gente está perdendo de contemplar a vida! Estou muito ansiosa para contemplar coisas, vivenciar coisas diferentes e dividir essas coisas só comigo, com mais ninguém...quantos segredos gostosos eu tenho guardado comigo, quantas descobertas eu tenho feito! Estou adorando aprender mais sobre mim mesma e muito ansiosa pelo que está por vir...pareço mais ausente, mais distante, mas estou, paradoxalmente, mais próxima, é assim que eu me sinto.